Macunaíma 2- Resumo da Obra
MACUNAÍMA – rapsódia (MÁRIO DE ANDRADE)
Macunaíma nasceu numa tribo amazônica. Lá passa sua infância, mas não é uma criança igual às outras do lugar. É um menino mentiroso, traidor, pratica muitas safadezas, fala muitos palavrões, além de ser extremamente preguiçoso. Tem dois irmãos, Maanape e Jiguê.
Vai vivendo assim a sua meninice. Cresce e se apaixona pela índia Ci, A Mãe do Mato, seu único amor, que lhe deu um filho, um menino morto. Depois da morte de sua mulher, Macunaíma perde um amuleto que um dia ela havia lhe dado de presente, era a pedra “muiraquitã”. Fica desesperado com esta perda, até que descobre que a sua muiraquitã havia sido levada por um mascate peruano, Venceslau Pietra, o gigante Piamã, que morava em São Paulo. Depois da descoberta do destino de sua pedra, Macunaíma e seus irmãos resolvem ir atrás dela para recuperá-la. Piamã era o famoso comedor de gente, mas mesmo assim ele vai atrás de sua pedra.
A história, a partir daí, começa a discorrer contando as aventuras de Macunaíma na tentativa de reaver a sua “muiraquitã” que fora roubada pelo Piamã, um comerciante. Após conseguir a pedra, Macunaíma regressa para a sua tribo, onde após uma série de aventuras finais, finalizando novamente na perda de sua pedra. Então, ele desanima, pois sem o seu talismã, que, no fundo, é o seu próprio ideal, o herói reconhece a inutilidade de continuar a sua procura, se transforma na constelação Ursa Maior, que para ele, significava se transformar em nada que servisse aos homens, por isso, vai parar no campo vasto do céu, sem dar calor nem vida a ninguém.
ANÁLISE LITERÁRIA DA OBRA LINGUAGEM
A linguagem é metafórica e postiça para a comunicação diária. No plano das aparências, esta primitividade é que adere a civilização urbana, mas no plano das intenções, Mário de Andrade satiriza a linguagem através de Macunaíma, devido ao seu desajuste apresentando um propósito de colocar em ridículo a norma culta que não corresponde à realidade brasileira e sim à realidade portuguesa.
No livro Macunaíma, encontramos a ausência de vírgulas, numa série enumerativa, normalmente se referindo às riquezas brasileiras. A ruptura da sintaxe e da pontuação que é uma característica do modernismo. Quando Mário de Andrade eliminou as vírgulas, ele estava usando o recurso do futurismo e ao mesmo tempo acrescentando a imaginação poética, que é a decodificadora das intenções poéticas, pois quem lê decodifica o pensamento.
HISTÓRIA
Este romance é escrito depois da Semana de Arte Moderna e está dentro da história da Literatura Brasileira na 1ª geração modernista, que caracteriza com a preocupação da ruptura, rejeição da herança do passado.
Na mitologia indígena, tudo se transforma em alguma coisa, pois a morte não é encarada com o desaparecimento total. Já o modernismo pregava a modernidade, a liberdade de expressão, contestação do passado, pois o passado é apenas uma simples imitação do que lhes foram impostas. Há também o aparecimento da antropofagia através do personagem Piamã, comedor de gente.
Macunaíma é um romance nacionalista. A ausência de vírgulas e pontuação é uma influência das vanguardas européias, causando efeito melódico.
Mário de Andrade tentou explorar na literatura uma idéia obsessiva, de modo que a superposição de dois signos formaria outro signo (música).
O autor deixou indefinido o espaço e o tempo em que se passa a ação. A literatura moderna queria a origem popular e o apego às lendas não só com palavras, mas também com o modo de expressar:
O nome Macunaíma, que significa o grande mal, coisa ruim, já é o primeiro dado da sátira, de crítica, mas por outro lado tem “Herói de nossa gente”. É um herói pícaro ou um herói às avessas, pois heróis em outras obras são lindos, belos e perfeitos. Em Macunaíma, seus defeitos são exaltados.
A cor preta é insólita, ou seja, não é comum, pois Macunaíma não é um índio comum. Quando Mário de Andrade retrata Macunaíma como sendo de cor preta, ele conta a história brasileira, a mistura dos negros com os índios, resultando no índio negro.
A ÚNICA LÓGICA DE MACUNAÍMA É NÃO TER LÓGICA NENHUMA.
No nascimento de Macunaíma, a natureza foi narrada como se tudo tivesse parado para ver o menino nascer.
Macunaíma é um hipodigma (tipo ideal) do homem da América Latina, preguiçoso… Mário de Andrade procura colocar em primeiro plano os defeitos do personagem: “Ai que preguiça!”.
A leitura de Macunaíma é a visão da luta do colonizador e o colonizado. O índio é o colonizado e o colonizador é o antagonista. A mensagem deste livro faz referência a nossa cultura, que se afastou da sua origem, e com isso, o modernista aparece para tentar conscientizar as pessoas para voltar às origens e ao amor a terra, sendo assim, Macunaíma é uma lenda amazônica.
Será feita, a seguir, a explanação de alguns capítulos do livro para que possamos dar uma idéia geral de alguns acontecimentos que foram destacados dentro da obra.
CAPÍTULO I
MACUNAÍMA
Este capítulo mostra o conflito de Macunaíma e Jiguê, mas Macunaíma rouba-lhe a mulher. Ele derrota o irmão não pela força e sim pela astúcia.
Há também neste capítulo vários elementos ligados ao folclore brasileiro, como por exemplo a pajelança (cerimônia que o pajé faz para curar alguém). Ocorre a mistura do folclore africano com o indígena. A transformação do índio é característica dos contos de fadas ibéricos.
Encontramos as três fontes da origem do folclore brasileiro: 1) africana; 2) indígena; 3) ibérica.
CAPÍTULO II
MAIORIDADE
Neste capítulo Macunaíma torna a conquistar a mulher do irmão, consolidando o poder de Macunaíma sobre Jiguê.
No 2º capítulo é a maioridade que é assegurada a Macunaíma com um balde de caldo de aipim. Ele se transforma num homem adulto e também mata a mãe.
CAPÍTULO III
CI, MÃE DO MATO
Este capítulo conta a lenda dos índios da Amazônia. As Amazonas eram mulheres guerreiras então chamadas de Icamiabas. Um viajante espanhol encontrou essas índias guerreiras que deram origem ao Estado do Amazonas. Macunaíma tentou conquistar a rainha das amazonas, apanhou muito e pediu ajuda aos irmãos. Com esse auxílio, consegue conter a índia rainha e é aclamado Imperador do mato. As índias não poderiam se casar, mas esta índia se casa. Antes de ela se transformar numa estrela, dá a Macunaíma uma pedra que é chamada “muiraquitã” e é esta pedra que impulsiona todo o restante do livro.
CAPÍTULO IV
BOIÚNA LUNA
Neste capítulo, Macunaíma passeia pelo Brasil e encontra um bacharel do século XVI. Neste encontro, há um irrealismo temporário. Ele perde a “muiraquitã”, pedra que representa a identidade do brasileiro. Reza para o Negrinho do Pastoreio para ajudá-lo a encontrar a pedra e este lhe conta o destino da “muiraquitã”. A pedra está com Venceslau, que morava na cidade de São Paulo, num local aristocrático.
Macunaíma decide então procurar a pedra. Desce o Rio Araguaia, vai ao Rio Tietê e até a cidade de São Paulo. Em São Paulo o dinheiro que ele trouxe era pouco e precisava trabalhar. Macunaíma fica triste com isso.
É assassinado perto do Mercado. Ressuscitado por Maanape, fica à espera da vingança. Ele se disfarça de francesa e foi travestido para ver se roubava a pedra de Venceslau, mas apanha dele.
CAPÍTULO V
PIAIMÃ
Neste capítulo começa a ação, pois aqui Macunaíma viaja para São Paulo atrás da sua pedra Muiraquitã, que fora roubada por Piaimã. Aqui também encontramos um trecho do texto que seria a lenda da origem das três raças.
A ORIGEM DAS TRÊS RAÇAS TAMBÉM TEM A SUA LENDA
“Uma feita a Sol cobrira os três manos duma escaminha de suor e Macunaíma se lembrou de tomar banho. Porém no rio era impossível por causa das piranhas tão vorazes que de quando em quando na luta pra pegar um naco de irmã espedaçada, pulavam aos cachos pra fora d’água metro e mais. Então Macunaíma enxergou numa lapa bem no meio do rio uma cova cheia d’água. E a cova era que-nem a marca dum pé-gigante. Abicaram. O herói depois de muitos gritos por causa do frio da água entrou na cova e se lavou inteirinho. Mas a água era encantada porque aquele buraco na lapa era marca do pezão do Sumé, do tempo em que andava pregando o evangelho de Jesus pra indiada brasileira. Quando o herói saiu do banho estava branco, louro e de olhos azuizinhos, água lavara o pretume dele. E ninguém não seria capaz mais de indicar nele um filho da tribo retinta dos Tapanhumas.
Nem bem Jiguê percebeu o milagre, se atirou na marca do pezão do Sumé. Porém a água já estava muito suja da negrura do herói e por mais que Jiguê esfregasse feito maluco atirando água pra todos os lados só conseguiu ficar da cor do bronze novo. Macunaíma teve dó e consolou:
- Olhe, mano Jiguê, branco você ficou não, porém pretume foi-se e ante fanhoso que sem nariz.
Maanape então é que foi se lavar, mas Jiguê esborrifara toda a água encantada pra fora da cova. Tinha só um bocado lá no fundo e Maanape conseguiu molhar só a palma dos pés e das mãos. Por isso ficou negro bem filho da tribo dos Tapanhumas. Só que as palmas das mãos e dos pés dele são vermelhas por terem se limpado na água santa. Macunaíma teve dó e consolou:
- Não se avexe, mano Maanape, não se avexe não, mais sofreu nosso tio Judas!”
CAPÍTULO VII
MACUMBA
Neste capítulo temos o envolvimento com a questão religiosa. Na macumba fica claro que Macunaíma é filho de Exu e é rezado o Pai Nosso do diabo, que é um dado curioso da nossa cultura popular.
CAPÍTULO VIII
VEI, A SOL
Há neste capítulo uma referência às filhas da terra. Macunaíma despreza as filhas da terra e se encanta com uma estrangeira.
Há também referência “MUITA SAÚVA, POUCA SAÚDE”. Mário de Andrade nos mostra que dentro de uma sociedade agrária, qualquer praga que prejudique a produção passa a prejudicar o povo. A saúva era considerada um mal nacional ela corta as folhas e as árvores secam.
No começo do século houve uma campanha nacional de saúde. Entre muita saúva e pouca saúde, há uma rima, que passa a ser uma frase de efeito. Muita saúva é um problema nacional, que tinha a saúva como um inimigo. E a saúde está ligada aos problemas da saúde do povo.
Neste capítulo também decide voltar para São Paulo atrás de sua pedra “muiraquitã”.
CAPÍTULO IX
CARTA PRAS ICAMIABAS
Este capítulo é o mais destacado do livro, porque trata vários itens quanto à linguagem, das origens de um povo e da personificação de Macunaíma em relação a sua identificação pessoal, ou seja, a sua identificação como um índio.
A carta é dirigida por Macunaíma às Icamiabas. O emissor aparece como imperador e as destinatárias como súditas.
A forma erudita é característica da linguagem culta (escrita), normalmente a linguagem escrita representa a norma culta e a oral, a popular. O livro até aqui está escrito numa linguagem oral. As grafias se prendem à linguagem popular. Na carta, há a tentativa de Macunaíma em se expressar uma linguagem culta. Esta tentativa tem por finalidade a carnavalização da norma culta, ou seja, uma sátira. O ridículo aparece na hipercorreção (ex.: não devemos desperdiçarmos).
Sempre há alguém que diz que Macunaíma é inteligente. Ele tem mais defeitos do que qualidades. Ao descrevê-lo, Mário de Andrade procura identificar o homem latino-americano e não o índio.
Nesta carta há um antinorma, o exagero da norma culta., pois quem escreve tentando escrever de uma forma culta é o analfabeto Macunaíma. Temos aqui uma paródia, pois a antinorma não é para ser levada a sério, é uma ironia somente, uma imitação grotesca, que é o exagero da norma, ou uso de palavras fora de seu contexto.
Macunaíma se apresenta às Icamiabas como Imperador. O tratamento às Amazonas é um distanciamento entre o mais importante e o sem importância. Esta carta é também paródia da carta de Pero Vaz Caminha, Pero Vaz descreve terra primitiva, Macunaíma descreve a cidade civilizada. Há um contraste entre primitivismo e civilização.
É também um contexto altamente irônico para aquelas pessoas que perdem a noção de sua origem e tentam incorporar um outro modelo de comportamento no qual não dominam. Exatamente como o povo da época, que deixava a cultura brasileira, para incorporar a de Portugal.
Este capítulo está preso à norma culta. Um outro ponto que distingue o texto da obra é o foco narrativo antes e depois. O foco narrativo é do narrador enquanto que na carta, o foco narrativo é do personagem, ou seja, do Macunaíma.
A visão da linguagem em Macunaíma tem uma intenção, escreve uma carta às índias Icamiabas para pedir dinheiro e para disfarçar esse pedido, usa seus palavrórios e elementos eróticos. O objetivo da carta está no fecho, nos 2 últimos parágrafos.
Nesta carta, ocorre a quebra da norma culta. Há também, uma proposta de sátira ao homem e a linguagem. É uma caricatura da linguagem culta. O exagero da tentativa de perfeição utilizado por Macunaíma, é a confirmação da caricatura, pois há uma preocupação de mostrar a erudição e a distorção da norma clássica provando que o personagem não tem força intelectual suficiente, cai no ridículo.
Mostra-nos que a intenção de Mário de Andrade é ridicularizar as normas cultas dos Parnasianos e também uma crítica ao homem de Letras do Brasil, porque ao invés de colocar sua linguagem local, vai procurar esta linguagem fora daqui.
Macróbios e micróbios, essas confusões feitas por Macunaíma é que geram o humor, que é próprio da sátira. O narrador é que critica a carta e não Macunaíma. Não há qualquer compromisso de lógica com a verossimilhança.
Esta atitude é pedante e o pedantismo é uma técnica do distanciamento. Outra prova do pedantismo, é a desvalorização do que é seu e supervalorização do que é dos outros.
Outra característica que o liga à sociedade é o apego ao dinheiro, pois sem dinheiro, Macunaíma não conseguiria fazer parte socialmente daquele contexto. Havia também o deslumbramento com os homens públicos, os policiais. Ao conseguir o domínio da língua, procura apresentar-se diante das Icamiabas como um poderoso, que é para mascarar a situação social anterior, que foi a surra que levou de Piamã. Com essa instrução, é uma crítica de Mário de Andrade daquele brasileiro que ganha muito dinheiro e depois começa a esnobar.
A citação das palavras estrangeiras é intencional. “Carta pras Icamiabas” apresenta duas versões da língua brasileira: a oral, que é falada por Macunaíma, e a da carta, que é culta. Há intencionalidade em colocar a distância do receptor para o interlocutor. Apresentamos aqui alguns aspectos da linguagem na carta:
1) “Nem 5 sois… – Tenho uma pastite (imitação burlesca, intencionalmente malfeita de Camões). Presença de Camões, que dentro da literatura Portuguesa é considerada o Clássico dos Clássicos. Neste aspecto, Mário de Andrade está criticando a cultura Portuguesa no Brasil.
“sois” – significa dia.
2) “idos de maio”
“idos (latinismo)
3) “ano translato” – ano passado
4) “súbditas” – seria a preocupação com a etimologia da palavra, mas com intenção de paródia.
5) “Trompas de Eustáquio” – é um termo científico, portanto não deveria estar na carta.
6) “mui” – termo arcaico que em determinadas circunstâncias é usado.
7) “saùdade” – erro ortográfico
“devido ás oscilações do Cámbio e á baixa do cacau” – erros ortográficos e tentativa de mostrar conhecimentos nos assuntos financeiros da cidade.
9) “diligentes edis, uns antropóides, monstros hipocentáureos azulegos e monótonos…” – “… per amica silentia lunae” – uso de uma linguagem postiça para impressionar as Icamiabas.
Deveria haver uma adequação de linguagem na “Carta pras Icamiabas. Quando a linguagem não é adequada à realidade, ela é burlesca e no momento que encontramos um termo científico não adequado ao texto, há uma quebra do entendimento.
O uso da vírgula está coerente com a intenção formal da carta. No restante do livro, não há essa preocupação. Há uma excessiva preocupação com a gramática, a ponto de interromper a história para se ater na linguagem.
CAPÍTULO X
PAUI-PÓDOLE
Neste capítulo encontramos novamente referências lendárias do Mutum que virou estrela.
Mutum é uma ave.
URARICOERA
É uma cidade em Roraima, no extremo norte, nas proximidades da Venezuela (Símbolo do Paraíso).
PEDRA MUIRAQUITÃ
Símbolo de união entre Macunaíma e Ci, também identidade nacional presente na sociedade primitiva à qual ele pertencia.
EPITÁFIO
“ESCREVEU NA PEDRA QUE FORA JABUTI”
Na lenda, as pedras já foram seres vivos que se tornaram pedras. E Macunaíma vai ser estrela. É um epitáfio que Macunaíma grava para ele mesmo.
A escrita de Macunaíma apóia-se no pensamento selvagem, na idéia de que tudo vira tudo e na capacidade de compor e recompor configurações a partir de conteúdos díspares, esvaziados de suas primitivas funções. Daí a técnica caleidoscópica, em que as idéias e imagens projetam-se arbitrariamente, inclusive nos modos de contar, nos estilos narrativos:
Alfredo Bosi destaca três estilos de narrar:
- Um estilo de lenda, épico-lírico, solene:
“No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. Era preto retinto e filho do medo da noite. Houve um momento em que o silêncio foi tão grande escutando o murmurejo do Uraricoera, que a índia Tapanhumas pariu uma criança feia. Essa criança é que chamara de Macunaíma.”
- Um estilo de crônica, cômico, despachado, solto:
“Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro passou mais de seis anos não falando. Si o incitava a falar exclamava:
__Ai! que preguiça!…
E não dizia mais nada. Ficava no canto da maloca, trepado no jirau de paxiúba, espiando o trabalho dos outros e principalmente os dois manos que tinha, Maanape já velhinho e Jiguê na força de homem. O divertimento dele era decepar cabeça de saúva.”
- Um estilo de paródia, retomando, satiricamente, a linguagem empolada e pedante dos parnasianos e dos cultores de Rui Barbosa e Coelho Neto. É o que se vê na Carta pras Icamiabas, que o herói escreve no capítulo IX, focalizando a duplicidade no uso de nossa língua.
“Mas cair-nos-iam as faces, si ocultássemos no silêncio, uma curiosidade original deste povo. Ora sabereis que a sua riqueza de expressão intelectual é tão prodigiosa, que falam numa língua e escrevem noutra (…)
Nas conversas, utilizam-se os paulistanos dum linguajar bárbaro e multifário, crasso de feição e impuro na vernaculidade, mas que não deixa de ter seu sabor e força nas apóstrofes, e também nas vozes do brincar. Destas e daquelas nos inteiramos, solícito; e nos será grata empresa vô-las ensinarmos aí chegado. Mas si tal desprezível língua se utilizam na conversação da pena, se despojam de tanta asperidade, e surge o Homem Latino de Lineu, exprimindo-se numa outra linguagem, mui próxima da vergiliana, no dizer dum panegirista, meigo idioma, que, com imperecível galhardia, se intitula: língua de Camões”
EPÍLOGO
RAPSÓDIA
Rapsódia – narrativa popular
Rapsodo – é quem transmite a narrativa
Este último capítulo explica por que o livro Macunaíma é considerado uma rapsódia.
Rapsódia é um canto épico e normalmente cantado em verso, mas a epopéia desapareceu no séc. XVIII e a sociedade não aceita mais o herói épico. O rapsodo é um Aedo, ou seja, um cantor popular que era um homem do povo cantando textos épicos e ia de cidade em cidade cantando a história de seu povo.
Diante destas definições, Macunaíma teria que ser em verso, para ser uma rapsódia, mas neste capítulo, fica expresso como se fosse uma história que o papagaio contou para o narrador. Com esse artifício Mário de Andrade criou uma pseudo-rapsódia.
A rapsódia se liga a narrativa popular, folclórica. Uma narrativa folclórica tem que ser antiga e a via de transmissão deve ser oral. Então, Mário de Andrade diz que, nessa história, o Rapsodo é aquele violeiro que ouviu o papagaio contar a história e o papagaio, por sua vez, ouvira de Macunaíma. Seguindo esta linha de raciocínio, Macunaíma contou a história para o papagaio que ia contando para as pessoas e isso garante a antigüidade, o anonimato. Por isso é chamado de Rapsódia.
Fonte: CD Livro Eletrônico – Ed. Didática Paulista
Coordenado: Sandro da Silva Pinto





junho 4th, 2009 as 19:49
Eu terei uma prova amanhã e este resumo me ajudou muito, pois eu já estava esquecendo a história.
Valeu!!! =)
julho 20th, 2009 as 18:02
Muito bom mesmo! Fantasticio
agosto 14th, 2009 as 15:54
Incrível a conciliação da história com a interpretação e o estudo da própria história! Parabéns
junho 16th, 2010 as 11:48
muito bom o livro de mario de andrade (macunaima) é uma leitura um pouco dificil porem interessante.