História da Moeda

Desde temos imemoriais, objetos inusitados circulam como moedas, delineando as atividades de comércio e estabelecendo as bases da vida política e social.
Colares ou braceletes de conchas, pérolas, dentes, ossos ou plumas, fragmentos de pedra ou metal, peças de cerâmica ou tecidos, objetos de formas e materiais surpreendentes – encontramos tudo isso sob a designação de moedas antigas, nas coleções de inúmeros museus ou em livros e revistas de etnografia, pré-história e arqueologia.
Outros objetos, aparentemente análogos, são considerados adornos ou jóias, embora sem comprovação mais evidente de que tenham sido utilizados como ornamentos, e não como moeda. Seu bom estado de conservação, indicando que tais objetos eram valiosos para seus donos, e suas características físicas, inadequadas para fins diretamente utilitários, sem dúvida estimularam arqueólogos e os que se dedicam a estudar a pré-história a atribuir uma função puramente decorativa a esses tesouros que, na realidade, também serviam como moedas.

UM FATO UNIVERSAL
Há mais de dois mil anos, Aristóteles já afirmava que, antes da utilização de moedas, os homens trocavam bens que lhes sobravam por aqueles que lhes faltavam (metadosis, em grego). Os etnólogos descreveram complexas relações de câmbio – kula, no Pacífico ocidental, o bilaba e o malaki, na África Central, ou o potlatch, na costa noroeste da América do Norte – nas sociedades mais antigas, porém já bastante hierarquizadas.
A moeda, como as relações hierárquicas e de dominação, não é portanto uma invenção moderna: ela já fazia parte de sociedades mais antigas – mais arcaicas, pode-se dizer – do que as civilizações da bacia do Mediterrâneo, do Oriente Próximo, do Extremo Oriente ou da América Central. A circulação de bens valiosos no interior dessas comunidades, e também entre elas, parece ter sido um fato universal, que de certa forma prefigurou a moeda em sua dupla função de meio de pagamento e de conta.
Mas essas funções essenciais ainda não se haviam tornado puramente econômicas naquelas sociedades antigas: permaneciam tributárias do sistema de relações de parentesco, alianças políticas, crenças e cultos que intervinha na renovação das forças de trabalho, organizava a produção e justificava a repartição da riqueza.
A moeda – ou, em tais circunstâncias, a paleomoeda – era um instrumento ativo da vida social. Ela regulava os nascimentos, os casamentos e o luto, servia para declarar a guerra ou estabelecer a paz, compensar os danos físicos ou morais, dialogar com as divindades tutelares da fecundidade ou da morte. Por outro lado, ainda não possibilitava a quitação de uma dívida, a compra de bens ou a aquisição da força de trabalho.
Mas a paleomoeda apresentava características de escassez e inutilidade análogas às de certas formas contemporâneas de moedas, antecipando inclusive a natureza econômica e política das moedas modernas: econômica, porque ela codificava atividades e riquezas como unidades contábeis e prefigurava, com sua uniformização, os atuais meios de pagamento; política, porque expressava, atualizava e reproduzia as relações de poder e hierarquia entre os indivíduos e grupos.

DISTANTE DO ESCAMBO
As trocas nas sociedades comunitárias eram, portanto, bem mais complexas que as práticas rudimentares representadas pelo escambo.
Primeiro, porque os produtos trocados percorriam grandes distâncias desde tempos muito remotos, conforme o demonstram as marcas concretas deixadas por matérias não-perecíveis, como o âmbar e a obsidiana. Alguns desses produtos foram encontrados a centenas de quilômetros de seu lugar de origem – do sul da Austrália às orlas setentrionais da Nova Guiné, do mar Negro à Polônia e à Renânia.
Já no Paleolítico superior, o homem de Cro-Magnon conhecia em Eyzies, na Dordonha, sul da França, conchas provenientes do oceano Atlântico, à distância de 200 km.
Em estágios posteriores, cada sociedade passou a produzir, com a finalidade de troca, uma mercadoria específica (machados de pedra, barras de sal, cerâmica, cortiça), que se convertia no meio de pagamento da produção adquirida de outros grupos.
Finalmente, surgiram no seio dessas sociedades grupos especializados na função de intermediar mercadorias, percorrendo, para tanto, dezenas ou até centenas de quilômetros.
Estavam, portanto, muito distantes do escambo, no qual as mercadorias funcionavam como meios de pagamento recíprocos, sem intermediários na troca. Entretanto, o desenvolvimento da função de conta era ainda limitado: não se concebia o preço relativo dos bens trocados como uma relação objetiva, mas como a expressão de uma relação social entre indivíduos e comunidades. O motor do desenvolvimento monetário ainda não era o mercado.

AS PRIMEIRAS MOEDAS
O fenômeno monetário surgiu com o desenvolvimento dos Estados, encarregados de gerir os excedentes obtidos pela exploração dos escravos, servos e camponeses, pelo controle das trocas a grande distância ou pela pilhagem dos povos vizinhos. Tratava-se agora de avaliar os tributos, impostos e taxas, normalizar os modos e meios de pagamento nos mercados e portos comerciais.
Na diversidade de suportes monetários das sociedades antigas – tecidos e grãos de cacau dos impérios maia e asteca, cauri e ouro dos reinos da África ocidental, barras compridas das cidades gregas, lingotes de ferro dos hititas, cevada e trigo da Mesopotâmia, trigo e cobre do Egito, milho e tecidos da China – as moedas chamam particular atenção, em virtude da perenidade de sua utilização.
No início, as moedas eram apenas um tipo determinado de peça metálica. Na China, por exemplo, antes da difusão das moedas e mesmo após seu surgimento no final do século IV a.C., circularam objetos com formato de enxadas e facas. As primeiras moedas foram cunhadas a partir do século VII a.C. na Ásia Menor e na Grécia, onde algumas cidades continuaram a utilizar compridas barras. Mais ou menos na mesma época – e até o advento da moeda no século IV a.C. – foram utilizados na Índia pequenos quadrados de prata, bastante finos e gravados com diversos motivos.

A INFLUÊNCIA DA GRÉCIA
As cidades gregas ocupam na história das moedas um lugar de grande destaque. Sua tradição numismática propagou-se ao longo dos séculos por todo o planeta, diretamente ou mediante uma complexa rede de influências. Na esteira de Alexandre Magno, cujas tropas se apoderaram da riqueza em metais acumulada pelos potentados do Oriente Próximo e transformaram-na em moedas, essa tradição expandiu-se consideravelmente em torno do Mediterrâneo.
Após haver utilizado lingotes de bronze de inspiração etrusca, Roma cunhou suas primeiras moedas no século III a.C., sob a influência das cidades gregas do sul da Itália. A colonização romana deu em seguida à numismática um impulso somente igualado pelo da expansão colonial européia do século XIX e início do século XX.
Além das fronteiras do Império Romano, os sassânidas perpetuaram uma prática numismática que denotava forte influência helenística – transmitida pelos partas, cujo império, fundado entre os séculos III e II a.C., em seu apogeu estendeu-se do Eufrates ao Afeganistão. Essa tradição helenística também influenciou as primeiras cunhagens islâmicas, enquanto a tradição romana perpetuou-se na cristandade européia.
Um processo similar ocorreu na Índia, que em sucessivas etapas sofreu a influência direta e indireta da Grécia, com a chegada das tropas de Alexandre, seguindo-se os contatos com o império romano e finalmente a colonizações muçulmana e européia
Quando os conquistadores espanhóis chegaram ao México, no século XVI, os grãos de cacau faziam as vezes de moeda. Os cronistas notaram, com assombro: o dinheiro crescia nas árvores.
Naquela época existiam três grandes regiões produtoras de cacau: a de Chontalpa e Soconusco (México), e a região do rio Ulua (Honduras). A produção e a circulação de cacau, assim como seu consumo, eram fortemente controladas por nobres e mercadores do vale do México e de Iucatã. Os baixos rendimentos do cultivo e as dificuldades do transporte aumentavam o custo social do cacau e, em conseqüência, seu preço.
Como outras moedas primitivas, o cacau não cumpria todas as funções próprias a um instrumento monetário. Assim, apesar de ser o principal meio de intercâmbio, tanto os astecas como os maias utilizavam como medida de valor a manta (quachtli), peça de algodão que representava uma quantidade determinada de força de trabalho, isto é, de valor. Em Iucatã a manta equivalia a 450 horas de trabalho. Apesar de não conhecermos o equivalente em horas de trabalho da manta do tributo asteca, sabemos, por outro lado, que seu valor em cacau era de 100 grãos, aproximadamente, segundo as flutuações da produção.
Pode-se afirmar, então, que o valor (em força de trabalho) da maioria dos bens que circulava podia ser expresso em cacau, enquanto o preço deste só podia ser fixado em mantas, cujo valor era invariável. A impossibilidade de fragmentar a manta e a conseqüente necessidade de um meio circulante dariam origem ao uso “monetário” do cacau, determinando a conversão recíproca entre o cacau e a manta.
Com o cacau, os antigos mexicanos preparavam uma bebida cerimonial cujo consumo ficava restrito aos nobres e aos guerreiros: o chocolate. Uma forte restrição pesava sobre o consumo do cacau, e os plebeus só podiam beber pulque, bebida alcoólica obtida do agave. Este tabu reforçava o poder da nobreza, pois eram atribuídas ao chocolate propriedades mágicas: era o alimento dos deuses.
Talvez fosse associado ao chocolate o sangue dos sacrifícios humanos oferecidos aos deuses, e especificamente do sacrifício que consistia em arrancar o coração das vítimas em honra ao deus Quetzalcóatl-Kukulcã (a serpente emplumada).
Segundo os mitos mexicanos, Quetzalcóatl, “jardineiro do paraíso”, introduziu o cultivo do cacau entre os homens quando vivia em Tula, e ao partir para o litoral enterrou o “dinheiro” que circulava então: conchas, plumas e pedras preciosas. Então a moeda-cacau se revestiu dos atributos mágicos do deus do qual se originara.
Os astecas foram os últimos senhores do vale do México. Esse florescente império, baseado no domínio sobre os povos que até então haviam disputado a posse do vale, devia sua prosperidade ao tributo de 38 províncias. Entre elas a de Soconusco, que, segundo o Código Mendoza, tributava 400 cargas de cacau das 980 que o Estado consumia.

O VALOR DE TROCA DO CACAU NA SOCIEDADE MAIA
O cacau circulava desde armazéns especiais, chamados “casas do cacau”, até os templos e quartéis militares, que representavam a grandeza imperial do México-Tenochtitlã e suas cidades aliadas e onde, segundo os cronistas, os soldados astecas consumiam grandes quantidades de chocolate.
Entre os maias, à diferença da sociedade asteca, a elite política coincidia em geral com a elite comercial, e o cacau entrava na vida social graças ao comércio, e não como tributo.
Em Iucatã o intercâmbio de cacau coexistia com uma produção equivalente de mantas, o que punha em relação de valor todas as mercadorias, inclusive certas terras, cuja produção era enviada ao mercado. Da necessidade de utilizar a mão-de-obra das comunidades camponesas nasceu a escravidão produtiva: os homens eram comprados e vendidos por cacau. Segundo Diego de Landa, o cronista dos maias de Iucatã, “o ofício a que mais estavam inclinados (era) o de mercadores, levando sal, roupas e escravos para as terras de Ulua e Tabasco, trocando-os todos por cacau e contas de pedras mais finas e melhores…”
O aumento da produção de cacau, graças aos escravos maias de Iucatã e também astecas, favoreceu provavelmente a circulação de cacau entre as classes baixas, sempre sob o controle da nobreza. Diversas crônicas coloniais e etnográficas assinalam que o cacau era usado como oferenda e doação nos ritos de passagem, como casamentos e funerais.
Que papel cabia ao cacau na acumulação de riqueza? Os grãos de cacau tinham que ser consumidos no prazo de um ano ou um pouco mais. Mas as diferentes estruturas sociais dos astecas e dos maias determinavam também comportamentos diferentes a esse respeito. Assim, no vale do México, os comerciantes tinham que se mostrar muito discretos para não ofender o imperador com suas riquezas. Por isso, segundo Frei Bernardino de Sahagún, vestiam-se humildemente, inclusive com mantos rasgados. A cobiça da nobreza obrigava os comerciantes pochtecas a consumir seu cacau em grandes quantidades, a ofertá-lo nos templos ou entregá-lo como donativo.
No México, o cacau estava ligado ao prestígio e simbolizava uma posição social. Entre os itzas de Iucatã a riqueza do cacau, da qual faziam alarde os grandes senhores com seus numerosos escravos e seus palácios decorados com grande refinamento, servia também para estimular a produção, já que ele podia ser aplicado em cultivos comerciais e na aquisição de mão-de-obra. Provavelmente por essa razão, os espanhóis conservaram o uso monetário do cacau em Iucatã e substituíram a manta pelo real, a moeda espanhola, como medida de valor, sempre em relação com as flutuações da produção de cacau.
No entanto, ainda em pleno século XIX, o cacau seria utilizado para pagar salários em Iucatã e outras regiões da América Central, como se lê no testemunho do viajante norte-americano J.L. Stephens, em 1842: “Notei (…) que os grãos de cacau circulavam entre os índios como moeda. Em Iucatã não há moeda de cobre nem moeda menor que a de meio real (…) Como os salários dos índios são baixos e os artigos que compram são realmente necessários para a vida… esses grãos de cacau ou partes de um meio real são a moeda mais comum entre eles.”

AS VALIOSAS CONCHAS DA ÁFRICA
Desde tempos remotos até o século XX, inúmeros objetos foram utilizados como moeda na África subsaariana: varetas ou pulseiras de metal, alguns tecidos, sal, pérolas, botões de camisa e conchas. Estas últimas, muito difundidas, foram os meios de troca que circularam em áreas de maior extensão.
Moluscos de origem marinha, as conchas de cauris e marginelas foram as que se destinaram com maior freqüência a esse uso. Os cauris (Cypraea annulus ou Cypraea moneta) são conchas brancas ou amarelo-claras, do tamanho de uma amêndoa. A valva dorsal é convexa, enquanto a ventral apresenta uma fenda. São encontradas apenas em mares quentes, principalmente no Pacífico Sul e no oceano Índico. A maioria dos cauris que circularam na África durante mais de mil anos procedia dos arquipélagos das Maldivas e das Laquedivas, no sudoeste da Índia, e das ilhas Zanzibar e Pemba, ao largo da costa oriental da África.
Despachados como mercadoria em seu local de pesca ou de coleta, os cauris freqüentemente serviam de lastro para os navios árabes, judeus ou europeus que os transportavam até os portos do continente africano, nos quais eram novamente vendidos como mercadorias.
As marginelas (Marginella ou Marginellidae) são moluscos marinhos de concha pequena e colorida, principalmente as procedentes das costas ocidentais da África. Também são encontradas nas regiões marinhas intertropicais da América, particularmente do Brasil.
Brilhantes como ágatas e mais compridas que os cauris, as olivas compreendem mais de 300 espécies. A mais utilizada como moeda na África subsaariana era a Olivancillaria nana. Recolhida nos arredores de Luanda, ela constituía a “reserva monetária” exclusiva dos reis do Congo até a chegada dos portugueses à região, no final do século XV.

A ÁREA DE CIRCULAÇÃO DAS MOEDAS-CONCHA
Até o século XVI, o nzimbu, nome congolês da Olivancillaria nana, circulava no reino do Congo, enquanto a marginela se limitava à bacia do Níger e o cauri difundia-se na região que constituiria posteriormente a África Ocidental e, em certa medida, na África Central.
Entre o século XVI e o final do século XIX, do Senegal a Uganda, do Sahel à Costa dos Escravos (Golfo da Guiné), o cauri foi mais difundido que qualquer outra moeda-concha. Mas foi pouquíssimo utilizado no Saara e jamais chegou a se implantar na África do Norte ou na África Austral.
Esse período marca também o apogeu da circulação das marginelas nas Áfricas Ocidental e Central, onde eram utilizadas pelas etnias da bacia do Congo em suas transações comerciais.
Já as olivas, sempre utilizadas exclusivamente pelos bantus, parecem jamais ter circulado fora das fronteiras congolesas. Para arruinar os reis do Congo, os portugueses trouxeram das costas brasileiras outras espécies de olivas, além de cauris do oceano Índico. Dessa forma, paulatinamente o nzimbu foi retirado da circulação monetária.
Os portugueses exportaram ainda olivas de Luanda e introduziram-nas como moeda fracionária, juntamente com os cauris, no tráfico de escravos negros do Brasil colonial.
As conchas não eram simples objetos de troca, pois possuíam todos os atributos das verdadeiras moedas. Como padrão e reserva de valor, constituíam à sua maneira instrumentos de câmbio e eram um símbolo de riqueza.

MOEDAS VERDADEIRAS, MOEDAS FICTÍCIAS
Enquanto moeda verdadeira, as conchas permitiam adquirir inhame, facas, bois ou escravos e remuneravam qualquer tipo de serviço. Enquanto moeda fictícia, serviam igualmente como medida de valor para fixar o preço de algumas mercadorias, sem forçosamente intervir em seu pagamento. No século XIX, o explorador francês Luís Gustave Binger transcreveu a conclusão de um acordo entre dois comerciantes do norte de Gana: “A cabaça de sal vale 2.000 cauris; o cento de kolas, 1.000 cauris. Ofereço-te então 200 kolas por uma cabaça de sal.”
Portanto, as conchas favoreciam as transações e constituíam excelentes indicadores da variação no tempo e no espaço do valor das mercadorias. Para maior comodidade, eram agrupadas para formar múltiplos: depois de perfuradas, eram atadas em conjuntos de 12, 20, 40 ou 100 unidades, segundo o sistema de numeração utilizado no espaço comercial em que circulavam.
Assim como os cauris, os musangas, discos de concha de caracol que circulavam em algumas regiões da África, eram atados através de um orifício central para formarem colares. Dez colares, medidos da extremidade do dedo maior do pé ao calcanhar, no início do século XX, valiam um doti ou 3,60 m de tecido azul; dez colares medidos do dedo menor ao calcanhar valiam um doti de qualquer pano de outra cor.
Essas moedas-concha da África subsaariana deram origem, em algumas regiões, a verdadeiras políticas monetárias. As autoridades tradicionais ou políticas – onde existia um poder centralizado – asseguravam sua circulação e regulamentavam sua importação. Ao tomarem medidas para evitar a superabundância de conchas, geradora de inflação, ou sua escassez, que dificultaria as transações comerciais, os soberanos exerciam um verdadeiro poder econômico. De Abomé à Costa dos Escravos, assim como no Congo, eles praticavam uma política monetária rigorosa, de reconhecida eficiência.
Desde o início da era colonial as conchas começaram a perder paulatinamente seu valor monetário e deixaram de intermediar as transações comerciais. Atualmente, apenas os cauris continuam a circular, ainda que muito timidamente, entre os povos do sudoeste de Burkina Faso e do norte de Gana. É a única região do mundo onde conseguiram conservar em parte sua função de moeda. Só não se sabe até quando.

OS DINARES DO CALIFA
NA época de Maomé, no início do século VII, os árabes não possuíam moedas próprias, e certamente nem precisavam delas. Para as tribos nômades, cujo principal padrão de riqueza era o camelo, é certo que o escambo constituía o meio de troca mais difundido, enquanto nas cidades mercantis, como Meca e Medina, provavelmente as moedas estrangeiras – o ouro bizantino ou a prata persa – eram utilizadas nas transações importantes.
Entre 636 e 655, as primeiras conquistas árabes – que tornaram a Síria, a Palestina e o Egito dos bizantinos, a oeste, e aniquilaram o império persa dos Sassânidas, a leste – trouxeram enorme quantidade de metais preciosos, com a pilhagem de baixelas, taças e moedas. Mas uma nova moeda não tinha qualquer urgência em face do supremo objetivo: guerra santa.
Os novos senhores muçulmanos adaptaram-se muito bem aos sistemas já existentes nas regiões conquistadas, e retomaram-nos a seu modo, com pequenas modificações. No Oriente, continuaram a cunhar delgadas dracmas de prata com a efígie do falecido imperador sassânida Cosroés II, acompanhada, porém, da inscrição em árabe: “Em nome de Alá.” Nas margens do Mediterrâneo, conservaram o tipo original do solidus de ouro e do follis de bronze: o busto ou a figura de pé dos imperadores de Constantinopla, Heráclius, com seu filho, ou Constantino II, acrescentando-lhes às vezes uma inscrição em árabe e suprimindo-lhes as cruzes, símbolos da cristandade largamente representados nas moedas bizantinas.
O advento da dinastia dos Omíadas, em 661, marca o início da verdadeira administração do império. No campo monetário, a primeira evolução para temas efetivamente muçulmanos surgiu na Síria e na Palestina, sob a influência do califa Abdel-Malik (685-705), principalmente na moedagem de bronze: em Damasco, Édessa e Jerusalém, cunharam-se moedas com figura do califa de pé, segurando com as duas mãos uma espada embainhada e rodeado por uma legenda em árabe.

NASCIMENTO DO DINAR
Em 696, Abdel-Malik teve o mérito de instaurar em todo o império um sistema monetário coerente que atendia às necessidades econômicas tanto nacionais como internacionais.
Para as transações importantes e o grande comércio, passou-se a utilizar o dinar de ouro, pesando 4,3 g; para o pagamento de salários e impostos, o dirém de prata, de 2,8 g; e para as compras comuns e cotidianas, o fels de bronze. O valor relativo dessas moedas não era fixo, pois evoluía segundo o preço dos diferentes metais. Originariamente, o dinar valia 10 diréns, mas valorizou-se a ponto de valer 14 e até 20 diréns em diferentes épocas. O dirém oscilava entre 16 e 24 fels -, pois seu peso variava de acordo com as regiões.
A denominação dessas novas moedas derivava diretamente das moedas de origem estrangeira até então utilizadas: o dinar, herdeiro – e concorrente – do solidus bizantino, devia seu nome ao denarius (denário) latino: o dirém retomava o aspecto e a denominação da dracma persa; e o fels (foulus, no plural), descendia diretamente do follis bizantino.
Em compensação, o aspecto visual das moedas era inteiramente revolucionário, despojado de alegorias, inscrições em homenagem ao príncipe reinante ou retratos. Tratava-se de moedas islâmicas, que deveriam, portanto, apenas participar da louvação a Deus – nem sequer o nome do califa figurava nelas. Como a representação de formas humanas e animais fora desaprovada pelo Profeta, elas se limitavam a apresentar um texto, com profissões de fé caligrafadas numa elegante escrita cúfica.
Esse sistema rompia com a tradição monetária do Oriente Médio e da África do Norte, ao mesmo tempo figurativa e pessoal (retrato do príncipe ou o emblema da cidade). Teria, entretanto, uma longevidade surpreendente, pois suas últimas moedas foram cunhadas no Iêmen por volta de 1960. Uma singular modernidade desse sistema: nenhum Estado soberano havia definido até então seu numerário de maneira tão explícita. Os árabes foram os primeiros a indicar ao mesmo tempo o nome, o local de cunhagem e o ano de circulação de suas moedas, datadas com os anos da Hégira, de acordo com o calendário muçulmano. No Ocidente, o hábito de datar as moedas só se generalizou a partir do século XV.

FIM DE UMA UNIDADE
Enquanto os dinares eram cunhados exclusivamente na capital dos Omíadas, Damasco, os diréns eram fabricados em inúmeras grandes cidades do império. As oficinas de maior atividade encontravam-se, certamente, em Damasco, mas também em Wasit, cidade fundada em 703 no vale do Tigre (ao noroeste de Basora, no Iraque). A disseminação dessas oficinas permite avaliar a imensidão do império: da Espanha (Córdoba) a Túnis, do Azerbaijão ao Afeganistão (Balkh) e ao Paquistão (região do Sind).
Os Abácidas destituíram os Omíadas em 750, e a expansão do comércio nos séculos VIII e IX desenvolveu o uso da moeda. Bagdá, a nova capital fundada em 762, absorveu grande parte das riquezas do império: converteu-se rapidamente no principal pólo econômico e num importante centro de cunhagem de ouro e prata. Quanto aos tipos monetários, continuaram iguais aos dos reinos precedentes; mencionavam, porém, o nome do califa, logo acompanhado pelo dos governadores de província. Mas o estilo caligráfico e a aparência das moedas diferenciaram-se por regiões, à medida que se firmavam dinastias locais nas províncias da Espanha, da África do Norte e do Irã Oriental.
Em 945, a revolução buíida eliminou o poder central dos Abácidas. Desde então, deixou de haver moeda comum no mundo muçulmano: os termos dinar e dirém continuaram a designar moedas de ouro e prata, mas seus diversos pesos e quilates, assim como a disposição de suas inscrições, passaram a refletir as ambições e os recursos financeiros de cada dinastia. Única exceção nesses tempos política e economicamente conturbados, o Egito dos Fatímidas (969-1171) era um país próspero: controlando a saída do ouro sudanês e ocupando posição estratégica nas grandes rotas do comércio marítimo, durante muito tempo continuou a cunhar dinares fortes.
No século XIII, as invasões mongóis que devastaram todo o Oriente muçulmano – Bagdá foi saqueada em 1258, e o califa abácida, executado – eliminaram os últimos vestígios do sistema concebido por Abdel-Malik. Logo, cada país passou a ter sua própria política monetária, a definir e nomear seu numerário. Somente no império otomano surgiu nova moeda de grande difusão: inicialmente um aspre de prata (de 1,2 g, e depois de 0,8 g), complementado, em 1478, por um sultani de ouro. Essas moedas circularam da Argélia à Turquia e até os Balcãs.
Entretanto, esse sistema não demonstrou a mesma estabilidade do precedente. Prejudicado, desde o final do século XVI, pela chegada maciça da prata das minas espanholas da América do Sul, foi revisado várias vezes antes de ser reformado em 1688, sem jamais se impor efetivamente ante as moedas ocidentais. Os tipos monetários retomaram a antiga tradição das peças personalizadas: apesar de não-figurativas, as novas moedas eram todas dedicadas à glória do sultão, ostentando freqüentemente o seu selo (a toughra) e citando sua filiação.
No mundo islâmico de hoje, assiste-se ao florescimento de moedas estritamente nacionais. Está definitivamente ultrapassada a época em que as moedas, transcendendo sua função econômica e atravessando as fronteiras políticas, destinavam-se exclusivamente a participar da celebração a Deus.

BANQUEIROS E FALSIFICADORES
É comum considerar-se a moeda sob o ângulo de suas funções de unidade de conta, de forma de pagamento e de reserva de valor. Padrão de medida para o conjunto dos bens trocados, a moeda gera um espaço social homogêneo, onde todos possuem a mesma referência para avaliar seus créditos e suas dívidas.
Na Europa, esse espaço se afirmou no século XVI no interior das diversas fronteiras nacionais, e a moeda levou ao exterior a bandeira de cada nação. Instrumento do pagamento, a moeda também fez circular a mercadoria. O desenvolvimento espetacular da produção e das trocas nessa época é, no entanto, geralmente associado ao crescimento da massa monetária sob a forma, ao mesmo tempo, de papéis comerciais e moedas metálicas fabricadas com os metais vindos da América.
Reserva de valor, por fim, a moeda implica uma concepção particular da temporalidade, que permite contornar a angústia existencial. O tempo torna-se o suporte dos projetos do homem, não pertence mais totalmente a Deus. O século XVI europeu é. uma época de tomada de consciência da moeda como capital, testemunhada pelos debates sobre juros dos empréstimos, o ajuste dos créditos e a origem das altas de preços, inclusive a venda de indulgências.
Parece, portanto, que a moeda cumpriu bem suas funções, e contribuiu para a consolidação dos laços sociais na Europa do Renascimento. Mas toda moeda tem seus dois lados: a moeda é também um conjunto de forças centrífugas de aquisição e rejeição. E essas agitações foram ainda mais acentuadas pela duplicação da população da Europa durante o Renascimento.

A CONTESTAÇÃO DO PODER DOS PRÍNCIPES
As primeiras perturbações causadas nessa época pela moeda referiam-se à sua emissão. Apenas a autoridade política representativa, em determinado espaço nacional, podia cunhar moeda e dar-lhe um curso legal, princípio esse tomado, após muitas vicissitudes, do direito romano. Apesar do rigor das sanções aplicadas aos contraventores (por vezes cozidos vivos em um caldeirão), as contestações da cunhagem oficial eram muito freqüentes.
A primeira categoria de fraudadores era a dos que se aproveitavam do fato de existirem moedas que, embora de mesmo valor, não apresentavam o mesmo peso. Tais moedas estavam em toda parte, pois as técnicas de cunhagem eram então rudimentares para permitir uma exata reprodução das peças. Qualquer comerciante atento, qualquer agente de câmbio e até mesmo os cobradores de impostos examinavam minuciosamente as moedas, retirando de circulação as mais pesadas. Bastava então vender a peso, por bom preço, o metal precioso nos ourives, para lucrar em cima do valor nominal das peças. Também se poderia diminuir o excedente de metal raspando a moeda, e só repor em circulação o estritamente necessário, contando com a pouca probabilidade de os usuários quererem verificar se as moedas seguiam os padrões oficiais (se seguissem, caberia aos usuários arcar com as despesas da verificação).
Serrilhar a borda das moedas e fazer um círculo em torno da efígie eram os meios empregados, sem muito êxito, para limitar essa diminuição; já a nova técnica da laminação, que impediria totalmente essa prática, não pôde ser implantada no século XVI em nenhum país, tanto em virtude do custo quanto da resistência dos artífices especializados na antiga técnica de cunhagem de moedas com martelo. Pouco a pouco, os príncipes tiveram que impor a pesagem das peças nas transações, para garantir à moeda uma autenticidade que só a sua efígie já não assegurava. No que se refere à luta dos soberanos para impedir que os ourives fixassem livremente o preço dos metais preciosos, bem pouco adiantaram os vários editos de proibição.
Mais radicais ainda foram os antagonismos que apareceram entre os falsificadores de moedas e o que se poderia chamar de antimoedeiros. A contrafação, isto é, a cunhagem de peças falsas (chamadas expressivamente de “adulterinas”) se concentrou, no século XVI, nas moedas espanholas, e dizia respeito sobretudo às pequenas peças, de fabricação menos cara e controle mais difícil. Entretanto, diversos soberanos não hesitavam em cunhar peças imitando as de Estados estrangeiros, a fim de elevar a taxa de cunhagem por sua conta (no caso de pequenos Estados que não tinham moeda própria), ou reter uma parte do metal cunhando imitações de menor peso.
Não faltam exemplos célebres de contrafações: na França, a cunhagem paralela de moedas foi organizada durante cerca de 10 anos pelos papistas, a fim de sabotar a produção de dinheiro oficial do rei protestante. Em outro caso, a cunhagem se deu em detrimento da Espanha, cujos metais preciosos vindos da América eram pirateados a caminho da Europa.
Desde que descobriu as Antilhas e depois a América, a Espanha explorou sistematicamente metais preciosos dessas regiões, os quais eram enviados duas vezes por ano, sob escolta militar, a Sevilha, onde eram cunhadas as moedas espanholas. As entradas de metal registradas no século XVI foram consideráveis: cerca de 250 toneladas de ouro e 200 mil toneladas de prata, ou seja, um terço de todas as reservas européias. Além disso, certos historiadores estimam que a quantidade de metais que entrou clandestinamente e escapou aos registros espanhóis, sendo desviada para cunhagem de moedas em países concorrentes, pode muito bem ter sido equivalente aos números oficiais.
Mas o desvio de moedas podia também tomar formas menos complicadas, como a que consistia em um acordo entre particulares para fazer circular peças proibidas pela autoridade soberana. Periodicamente, os príncipes decretavam que determinada moeda nacional ou estrangeira não poderia mais ser usada em transações comerciais por ser de qualidade inferior. Ela deveria, então, ser levada à casa da moeda para ser destruída, ocasião em que o portador receberia o valor correspondente ao peso da moeda. Era comum os particulares não levarem em conta esses editos e colocarem em circulação privada as peças em questão – principalmente quando faltavam instrumentos monetários. Foi, por exemplo, o que aconteceu na França com as moedas espanholas de pequeno valor na segunda metade do século XVI.
Mais freqüente ainda era a prática de negociar com moedas oficialmente autorizadas, mas dando-lhes uma cotação (chamada “voluntária”) que ignorava o preço fixado pelo príncipe. Nessa época, e por mais dois séculos ainda, o valor das moedas era estabelecido por anúncio público, e não pela inscrição na própria moeda. Esse fato fez com que se desconfiasse da cunhagem oficial e, em certas regiões e épocas, aconteceu de a cotação privada de uma moeda alcançar o dobro do valor anunciado oficialmente. Essas circunstâncias comprometiam seriamente a capacidade inerente à moeda de homogeneizar as relações sociais.
No grupo dos antimoedeiros, convém estabelecer duas categorias de agentes. Primeiro, havia os que se recusavam a abandonar a permuta; tal sistema se manteve em inúmeras comunidades rurais, apesar da extinção do comércio de mercadorias em todo o espaço europeu da época. Eram também, de certa forma, antimoedeiros os que queriam ater-se somente ao peso do metal precioso (e, em certos casos, ao do sal) como medida de valor, excluindo das transações qualquer moeda cunhada pela autoridade pública.
Para isso existiam diversos meios. Primeiro, podia-se incluir uma “cláusula ouro” nos contratos a prazo, estipulando que o pagamento se efetuaria em determinado peso de metal ou determinado número de moedas especificadas, qualquer que fosse seu valor do momento corno unidade de conta. Essa cláusula, herdada do direito romano, se manteria por muito tempo. Nos contratos de compras diretas, a desconfiança com relação à cunhagem traduzia-se na obrigação de pagar em metal bruto, com base em uma tarifa contratual. No século XVI, na França, entre um quarto e um terço das transações ocorria mediante troca de objetos de ourivesaria (anéis, taças) ou de pó de ouro retirado dos rios (a garimpagem ainda era uma atividade corrente), quando não raspado das moedas em circulação.

O COMÉRCIO INTERNACIONAL
No comércio da Europa com o resto do mundo, os pagamentos eram efetuados com metais preciosos. É verdade que para comprar as sedas e as especiarias do Oriente podia-se utilizar certas moedas de curso oficial, em particular o “excelente” espanhol e o sequim veneziano, até meados do século XVI, e depois o real de prata espanhol. Mas essas peças, pouco numerosas, tinham características específicas que impediam que fossem substituídas por outras.
Com um peso de metal puro praticamente constante (3 a 4 gramas), essas moedas eram difíceis de imitar, e a efígie nelas gravada só garantia a sua conformidade, sem representar uma unidade de conta fora das fronteiras nacionais. Dessa forma, no comércio internacional da Europa, essas moedas valiam de acordo com seu número ou seu peso em metal puro, mas careciam de status monetário. Nesse aspecto, e mesmo sem considerar a guerra, a pirataria e a escravidão, que o acompanhavam, o comércio desenvolvido no século XVI pelos europeus não pretendia homogeneizar o espaço mundial.
O mesmo acontecia com os certificados de depósito que circulavam dentro de cada espaço nacional europeu. Esses certificados, que só seriam substituídos por cédulas de banco um ou dois séculos mais tarde, eram emitidos desde o século XIV por certos banqueiros em troca de depósitos em espécie em seus cofres; tinham o valor de promessa de pagamento imediato pelo banqueiro, e circulavam como moeda.
O fraco desenvolvimento da indústria e do artesanato era ao mesmo tempo causa e conseqüência dos costumes monetários da época: de um lado, essas atividades não produziam riquezas suficientes para que sua partilha fosse objeto de um consenso social; de outro, a orientação prioritária das despesas – guerras, terras, prebendas, produtos de luxo importados – mantinha sobretudo categorias parasitárias. A produção permanecia principalmente agrícola, e seus excedentes eram trocados em mercados locais ou nas feiras distantes, e somente em certos períodos do ano. A figura do empresário ainda não surgira, e a atividade econômica era simbolizada pelos negociantes, por cujas mãos circulava o dinheiro.

OS BANQUEIROS MERCADORES
Entre esses negociantes, os banqueiros mercadores, em seu apogeu no século XVI, ilustram perfeitamente a natureza da atividade monetária da época. Desde a Idade Média, havia nos países da Europa uma redistribuição de mercadorias: matérias-primas do continente e artigos de luxo do Oriente eram objeto de um intenso comércio de importação e exportação. Este se localizava nas cerca de seis grandes cidades onde se realizavam feiras periódicas e onde o pagamento das compras suscitava uma atividade específica: a conversão a um certo preço das unidades contábeis nacionais (o câmbio).
Os banqueiros mercadores, que perpetuavam uma tradição iniciada no século XIII, nas feiras de Champagne, eram então agentes particulares que possuíam o monopólio da compra e da revenda da dívida internacional (letra de câmbio) dos mercadores comuns. Seu monopólio vinha de sua implantação em todas as feiras da Europa, onde formavam uma rede que fazia deles os intermediários obrigatórios dos outros mercadores. Esse monopólio levou a uma avaliação consensual do preço internacional de cada dívida originalmente expressa na moeda de um só país. Nesse sentido, os banqueiros mercadores, em Lyon, sua capital, criaram no século XVI uma moeda de âmbito europeu.
Ao determinarem o valor internacional das moedas, os banqueiros mercadores entravam certamente em conflito com seus clientes comerciantes, de quem cobravam uma margem de lucro. Mas deviam enfrentar os príncipes, que fixavam, por seu lado, uma cotação oficial para as moedas estrangeiras admitidas em seu país. Muitas modificações e altas de preços nasceram desses antagonismos monetários, exacerbados, além disso, por outras dimensões que confrontavam as atividades financeiras e bancárias no próprio círculo dos banqueiros e mercadores.
Geradora do vínculo social em seu princípio, em virtude da referência comum que institui, a moeda é também perturbadora por seu uso. No que pese à sua transformação em uma nova divindade na Europa do século XVI, a moeda, à imagem e à semelhança do homem que a criou, continua na busca de seus limites.

A HISTÓRIA DO DOLAR
A história do dólar norte-americano resume-se a uma longa evolução que livra a divisa norte-americana da desordem interna, transformando-a na primeira moeda internacional.
Jan Kregel

Durante a segunda metade do século XIX, a libra esterlina gozava da primazia como moeda internacional. De todas as suas possíveis rivais, o dólar norte-americano parecia ser a moeda que tinha menos possibilidades de substitui-la. Os EUA eram um devedor internacional não muito confiável, que necessitava de um banco central e, inclusive, de um sistema monetário unificado. A preponderância do dólar só se impôs no século XX, depois de uma história longa e inverossímil que deu lugar, finalmente, à criação de um organismo bancário central, a Reserva Federal, e converteu o dólar em uma moeda nacional garantida pelo governo federal.
Ao contrário dos sistemas monetários europeus, a Constituição dos EUA, adotada em 1789, nunca outorgou a exclusividade de emissão de moedas e notas ao governo federal. A falta de uma legislação monetária clara deu lugar a uma infinidade de meios de pagamento que circulavam praticamente sem nenhum controle ou respaldo de um organismo bancário central. Nessa situação caótica, as moedas estrangeiras tiveram curso legal até 1857, e ainda em 1901 uma mina de prata de Oregon continuava cunhando suas próprias moedas de prata para “uso comercial”.
Como vários estados da União se encontravam na bancarrota por não poderem honrar suas emissões de papel-moeda, foram proibidos de emitir. Porém, nada os impedia de criar bancos, e estes podiam colocar cédulas em circulação livremente. Assim, o estado de Kentucky fundou um banco privado, do qual era o único proprietário, e começou a efetuar pagamentos com suas cédulas. Essa tradição individualista em questões monetárias deu lugar a uma atividade bancária “descontrolada”, que se desenvolveu amparada por leis estatais muitas vezes extremamente complacentes (free banking laws) e que autorizavam qualquer indivíduo ou associação a abrir um banco e emitir cédulas, sem autorização ou controle algum.
A inexistência de um banco nacional obrigava o governo federal a fazer todas as suas transações através de estabelecimentos privados ou em espécie. Em 1840, o presidente Martin van Buren criou o “sistema de Tesouro independente”, que se ocupou das operações financeiras do governo através de suas agências abertas em todo o território nacional. Mas o Tesouro não era um banco e não podia, portanto, emitir cédulas; todos os lucros e despesas governamentais tinham que ser efetuados em ouro ou prata. O Estado não podia custear desembolsos que ultrapassassem os impostos arrecadados, a não ser que recorresse à emissão de obrigações subscritas em ouro.

OS GREENBACKS
As necessidades de financiamento da Guerra de Secessão (1861-65) deram origem a diversas disposições monetárias que permaneceram vigentes até o final do século. O Tesouro começou por emitir “notas à vista” (demand notes), que não tinham curso legal, mas eram conversíveis em ouro. Não obstante, a escassez de reservas de ouro do Tesouro obrigou a suspender imediatamente a conversibilidade, e até o fim da guerra o financiamento pôde ser feito graças à emissão de notas do Tesouro (US Notes), respaldadas apenas na boa-fé e na reputação do governo. Elas eram chamadas popular-mente de “notas verdes” (greenbacks), nome que ainda hoje o dólar norte-americano tem em todo o mundo.
A emissão das “notas verdes” estava limitada a 433 milhões, mas devido às crescentes dificuldades para obter empréstimos e ao crescimento dos gastos, o secretário do Tesouro, Salman P. Chase, decidiu aplicar em todo o país o sistema de livre criação de bancos, autorizado por uma lei de 1869, a National Bank Act. Essa lei autorizava qualquer grupo de cinco pessoas a constituir uma “associação bancária nacional e emitir notas correspondentes a suas obrigações do governo federal, depositadas junto ao Controlador da Moeda”.
Para impedir a concorrência entre essas notas e as dos bancos estaduais, estes últimos tinham que pagar uma taxa de 10%, o que logo os levou a sair de circulação. Os bancos estaduais contra-atacaram, oferecendo serviços de pagamento por cheque contra as contas em depósito, o que se mostrou um atraente substituto para as emissões dos bancos privados.
Assim, no fim da Guerra de Secessão, a extraordinária diversidade de formas de pagamento, representando as obrigações de milhares de bancos, haviam-se reduzido às “notas verdes” e às notas dos bancos privados (chamados national banks), que não podiam ser convertidas em metal, mas cujo número estava estritamente limitado. Nos EUA a oferta monetária ficava rigidamente fixada; não podia se ajustar às flutuações dos câmbios, nem às freqüentes ondas de pânico desencadeadas pela falência dos bancos carentes de regulamentação (dois anos depois da aplicação do sistema de livre criação de bancos, em Michigan, por exemplo, os 40 estabelecimentos bancários existentes haviam falido).

CICLOS AGRÍCOLAS E ESCASSEZ DE NUMERÁRIO
Por tratar-se de um país agrário, as necessidades de moeda dependiam do ciclo da colheita. Quando os agricultores vendiam seus produtos, os depósitos se acumulavam nos bancos das regiões agrícolas e provocavam uma escassez de fundos nos bancos das regiões industriais do Leste. Os national banks, não podendo ter sucursais, careciam de um mecanismo para canalizar os recursos excedentes. Como não havia um banco central para emprestar reservas, não havia nenhum meio de enfrentar essas flutuações, exceto mediante a modificação brutal das taxas de juros e a declaração de falências dos bancos. Essa situação, agravada pela grande absorção de numerário de um Tesouro independente e a falta de uma regulamentação bancária estrita, provocava instabilidade extrema e freqüentes crises.
Para muitos, essa instabilidade devia-se à falta de numerário, que beneficiava os que estavam interessados em que a prata fosse a base do sistema monetário norte-americano Foi assim que William Jennings Bryan lançou um movimento em favor da “prata livre” (free silver movement), com o objetivo de poder cunhar livremente esse metal como dinheiro legal. Em 1878 a lei Bland-Allison autorizou os bônus de prata do Tesouro, que se converteram em dinheiro legal em 1886. Em 1890 a Sherman Silver Act praticamente obrigava o Tesouro a adquirir a produção total das minas de prata dos EUA. Em 1882 foram adotadas medidas similares para os bônus de ouro, mas nenhuma delas deu à circulação monetária a flexibilidade esperada.
Esse sistema criou graves dificuldades não só internas, como também internacionais. Na verdade, a única maneira de compensar os câmbios da demanda interna de numerário eram as operações no mercado mundial; estas, por sua vez, provocavam uma instabilidade no funcionamento do sistema monetário internacional. Isso foi o que aconteceu em 1893, quando se propagou bruscamente o medo de os EUA não respeitarem a conversão da dívida pública em ouro, saldando-a, ao invés disso, em prata, cujo preço nos mercados internacionais estava caindo, o que provocou uma fuga de ouro incontrolável e a falência de diversos bancos.

PARADOXOS DA MOEDA MODERNA
Nem objeto mercantil, nem atributo do poder, a moeda expressa as regras do fogo social  Ghislain Deleplace

0S economistas costumam adotar uma atitude em relação à moeda que pode parecer curiosa. À medida que, no século XVIII, se desenvolveram os bancos emissores de cédulas, graças aos quais se tornou possível implantar uma política de criação monetária autônoma, livre das limitações impostas pela produção de metais preciosos, puseram-se os economistas a propagar a idéia de que a moeda é um fenômeno secundário, que pode ser abstraído dos estudos sobre as leis econômicas fundamentais. Mas esse ponto de vista, desde então predominante, não os impede de denunciar regularmente as desordens monetárias responsáveis, segundo eles crêem, pela instabilidade das economias, enquanto insistem em atribuir à moeda um lugar subalterno no funcionamento dessas mesmas economias. Essa atitude duplamente paradoxal demonstra, pelo menos, a complexidade da função da moeda nas sociedades modernas.
Mas foi em torno da análise monetária da sociedade que se desenvolveu o pensamento econômico na Europa do Renascimento. A moeda era então considerada o objeto da riqueza dos comerciantes e, ao mesmo tempo, o atributo do poder dos príncipes. A relação entre príncipes e comerciantes era, na época, o verdadeiro tema da análise monetária – e o fundamento de uma teoria econômica da sociedade.
Esse enfoque sofreu no século XVIII uma mudança radical, confirmada pelas palavras do filósofo inglês David Hume (1711-76): “A moeda propriamente dita não é um dos objetos do comércio, mas apenas o instrumento pelo qual os homens entram em acordo para facilitar a troca de mercadorias. Não é a engrenagem dos negócios, mas o óleo que torna o movimento da engrenagem mais fácil e suave.”
Esse conceito puramente instrumental da moeda é o corolário de uma visão da sociedade em que o mercado desempenha sozinho o papel de regulador. Induz a destituir o príncipe – o Estado – de qualquer função de coordenador entre os agentes privados, pois estes são todos comerciantes, naturalmente ligados uns aos outros nessa “sociedade mercantil” Reduz assim a moeda a um simples véu, que envolve as trocas e deve ser descartado para que se possa analisar a realidade dos fenômenos econômicos. Qualquer tentativa de o Estado gerir a moeda é, portanto, considerada ameaçadora para a harmonia social, cuja fonte natural é atribuída às leis da concorrência.
Essa desmaterialização progressiva do instrumento monetário é então compreendida como uma simplificação das trocas comerciais. Objetos de uso corrente nas comunidades funcionam sucessivamente como moeda – um metal qualquer, ouro ou prata em barras e lingotes, diversos metais, certificados de ouro, cédulas, cheques e cartões de crédito, enquanto não surge a moeda eletrônica. Em conseqüência da desmaterialização, a moeda é emancipada de qualquer objeto que garanta seu valor, para se transformar em puro instrumento de transferência.

INSTRUMENTO DE TROCAS OU RIQUEZA?
Essa concepção instrumental e liberal da moeda, apesar de coerente com uma visão da sociedade que privilegia os mecanismos de mercado, não está isenta de paradoxos. Principalmente, porque, mesmo quando livre de qualquer intervenção estatal, a natureza das trocas monetárias torna difícil, ou até impossível, a existência de uma “boa” moeda, ou seja, de um instrumento que exerça corretamente sua função de intermediário das trocas.
Na verdade, ao contrário do escambo, em que o comprador de um bem X é na mesma operação o vendedor de um bem Y, o comércio monetário é composto de duas transações distintas, separadas no tempo: o agente primeiro vende Y por algum dinheiro (sem comprar, portanto) e depois compra X com esse dinheiro (logo, sem vender). Se a moeda é apenas um instrumento, o agente só concretiza a transação monetária se obtiver alguma vantagem; esta existe, segundo os manuais, porque é mais fácil o agente encontrar um comprador para Y e um vendedor de X que descobrir uma única pessoa que deseje Y e ofereça X.
É preciso, ainda, que essa vantagem não seja anulada por um obstáculo que impeça o agente de utilizar, para comprar X, o dinheiro obtido com a venda de Y, ou que esse dinheiro só permita comprar de X uma quantidade inferior à que seria obtida mediante o escambo. Para que o agente privado possa escolher a modalidade de intercâmbio monetário – argumento essencial do enfoque instrumental e liberal da moeda – é preciso, portanto, que a moeda continue a ser reserva de poder de compra durante o tempo que separa as duas transações
É aí que se constitui o paradoxo. Se, na realidade, o instrumento escolhido como moeda cumprir mal essa função de reserva (ou seja, se a permanência de seu poder de compra não for garantida), seus detentores desejarão passá-lo adiante tão logo o receberam, ou mesmo abandoná-la para retornar pura e simplesmente ao escambo. Esse fenômeno é característico das situações de hiperinflação.
Se, ao contrário, o instrumento escolhido como moeda desempenhar bem sua função de reserva, os agentes privados tenderão a estacá-lo como riqueza, e esse entesouramento irá retirá-la de circulação – o que também impedirá a moeda de cumprir sua função como intermediária de trocas.
No âmbito das moedas metálicas, esse fenômeno foi logo verificado e posteriormente batizado como Lei de Gresham, devido ao nome de um financista inglês do século XVI, que observara: “a má moeda expulsa a boa.” Ocorre o mesmo com a moeda fiduciária’, pois esta tem como origem a confiança depositada pelos agentes em uma moeda à qual atribuem a qualidade de reserva do poder de compra. No decênio de 1930, John Maynard Keynes apontou a “preferência pela liquidez” como causa principal da incapacidade de uma economia monetária atingir um nível estável de pleno emprego. No plano internacional, o “dilema de Triffin” realçou, nos anos 50, a incapacidade de os EUA simultaneamente assegurarem o aprovisionamento mundial de dinheiro líquido e a manutenção da confiança no dólar como moeda de reserva.
Portanto, é uma ilusão reduzir a moeda a um simples intermediário das trocas, gerado pelo funcionamento do mercado; e quanto mais se partir do princípio de que os agentes escolhem acumular a moeda em função de um simples cálculo econômico, maior é o risco de uma desordem monetária.

UM PODER MONETÁRIO LIMITADO
E oposição à teoria instrumental e liberal da moeda, existe uma teoria institucional e intervencionista que introduz idéias interessantes: a moeda não é um apêndice, mas a própria condição para a existência do mercado, e sua gestão eficaz, em vez de desordenar, permite agir favoravelmente sobre o conjunto da economia.
Mas, associada a essa teoria, encontra-se a idéia de que a moeda é fundamentalmente uma criação do Estado, cujo poder monetário é particularmente exemplificado pela instituição, logo após a I Guerra Mundial, da circulação obrigatória da moeda fiduciária. A redução da moeda a uma propriedade do poder estatal também suscita paradoxos, principalmente o de que a história da moeda não passa, na realidade, da história da resistência dos agentes privados a esse poder.
Já era assim na época das moedas metálicas. No século XVI, não eram o ouro e a prata franqueados que circulavam, e sim peças que o príncipe tinha o monopólio de cunhar, às quais atribuía um valor legal em unidade de conta. O ouro e a prata não eram, portanto, moeda-mercadoria; por decisão do príncipe se transformavam em moeda metálica. Mas os agentes privados contestavam sem cessar esse valor legal e utilizavam as moedas atribuindo-lhes “valores voluntários”, quase sempre mais elevados. Essa depreciação da unidade de conta – que correspondia na prática a um peso de metal precioso inferior à definição oficial – era uma forma de inflação e demonstrava que os príncipes não geriam a moeda como bem entendiam.
O poder monetário do Estado submete-se, portanto, a duas graves limitações: as decisões dos agentes privados intervêm no processo de criação da moeda, seja quanto à oferta (impossibilidade de controlar rigorosamente a cunhagem em regime de moeda metálica, autonomia relativa dos bancos em regime de moeda fiduciária), seja quanto à demanda (o volume da emissão monetária depende definitivamente de os agentes privados decidirem entre levar seu ouro à Casa da Moeda ou pedir empréstimo ao banco); por outro lado, o comportamento dos agentes privados na circulação da moeda pode expressar sua desconfiança ante a gestão pública dessa mesma moeda e causar sua depreciação interna (inflação) ou ex.ema (baixa da taxa de câmbio).
Ao se confrontar as duas teorias da moeda, constata-se então que ela não é um objeto-mercadoria nem um atributo do poder estatal; trata-se, antes, da condição para a existência dos mercados e da expressão de uma coesão social que permite ao Estado exercer suas funções. Um regime monetário é um conjunto de regras do jogo próprio de uma determinada sociedade.

A MOEDA MODERNA
Qual seria, segundo essa ótica, a diferença entre moeda moderna e moeda antiga? Atualmente, costuma-se dizer que a moeda moderna é moeda fiduciária, enquanto a moeda antiga era moeda-mercadoria; a moeda metálica do passado, portadora de um valor intrínseco regulado pelo mecanismo do mercado do metal, opor-se-ia assim à moeda desmaterializada de hoje, cujo único fundamento é a confiança inspirada pelo Estado, que impõe seu curso legal. Essa oposição é inadequada: só existe economia monetária quando há unidade de conta abstrata, e esta pode coexistir com meios de circulação metálicos.
Em compensação, dois fatores caracterizam o regime de moeda bancária, pelo qual se define a moeda moderna. Em primeiro lugar, o princípio de emissão permite que uma categoria de agentes, os empresários, obtenham a moeda sob a garantia de uma promessa de atividade. Apesar de o acesso ao crédito bancário estender-se atualmente ao conjunto dos agentes econômicos, há uma diferença fundamental entre aqueles – particularmente os assalariados – que podem obter empréstimos mediante a garantia de rendas passadas (ou da probabilidade de continuarem a dispor dessas rendas) e aqueles – os empresários – que obtêm crédito mediante a garantia de um projeto mercantil cujo êxito (caução única para o reembolso do empréstimo) é incerto. Esse princípio de emissão engendra, portanto, uma discriminação social, mas é também um fator de dinamismo econômico porque, como observou Keynes, “permite aos empresários levar seus negócios com confiança”.
Em segundo lugar, o sistema bancário é hierarquizado, e a atividade dos bancos secundários supõe a existência de um credor de última instância. Este “banco dos bancos”, o banco central, tem dupla função. Por um lado, assegura a compensação interbancária, e, para tanto, fixa na unidade de conta do território a taxa das moedas bancárias. Na realidade, um franco emitido por um banco comercial não é o mesmo emitido por outro banco; a aceitação de cheques emitidos contra este ou aquele banco – e, portanto, a utilização de depósitos bancários como moeda – supõe um princípio de compensação organizado por uma instância central.
Por outro lado o banco central protege os demais bancos das falhas de reembolso inerentes ao princípio de emissão descrito anteriormente, garantindo-lhes o refinanciamento em moeda central. Esse mecanismo de segurança certamente não-automático, faz com que recaiam sobre a sociedade, mediante sua repercussão sobre a inflação e as taxas de cambio, as conseqüências da incapacidade de parte dos empresários em honrar seus compromissos de reembolso; mas também fornece ao sistema uma elasticidade relativa, como atualmente se constata ao evitar a propagação de falências.
Essas características da moeda moderna demonstram que sua origem não se encontra na substituição das espécies metálicas. Essa origem deve ser pesquisada no século XVI, na articulação entre as espécies metálicas cunhadas pelos príncipes – a moeda central – e as letras de câmbio postas em circulação na Europa pelos mercadores-banqueiros italianos – a moeda bancária.
Unidade de conta das relações sociais, a moeda materializa as regras que permitem o jogo complexo das economias. Paradoxal por natureza – pois se apresenta como conseqüência da atividade econômica quando, na realidade é sua condição – não é de se estranhar que ela seja objeto tanto de debates teóricos como de interesses práticos.

MOEDAS DO BRASIL
No início da colonização, pouco se falava em dinheiro. O reduzido comércio interno era feito na base de trocas e por isso era mínima a circulação de moedas. A unidade monetária usada era o real português, mas a primeira “moeda” brasileira de fato foi o açúcar, que em 1614 passou a valer como dinheiro, por ordem do governador Constantino Menelau. O valor da arroba (15 kg) de açúcar branco foi fixado em 1.000 réis, o do mascavo em 640 réis, e o das outras espécies em 320 réis. Só os funcionários da administração portuguesa é que recebiam salários em moeda sonante. O dinheiro vinha de Portugal, mas sua origem na verdade era a Espanha, muito mais rica em reservas metálicas devido à maior abundância de ouro e prata em seu império colonial.
Durante a dominação de Portugal pela Espanha, de 1580 a 1640, a moeda utilizada na Colônia brasileira era o real hispano-americano, cunhado em Potosi (Bolívia). Havia moedas de 8, 4, 2, 1 e meio reales, que correspondiam respectivamente a 160, 80, 40 e 20 réis.
Em 1624, a Holanda ocupou o nordeste brasileiro; sob seu domínio foi realizada a primeira cunhagem de moedas em território nacional. Quadradas, pequenas, feitas em ouro e prata, surgiram em Pernambuco, em 1645. Serviam principalmente para pagar os soldados holandeses aqui estabelecidos. Expulsos os holandeses, em 1654, e já restaurado o reino de Portugal voltou a valer na Colônia sua política monetária. A partir de 1669, moedas de prata portuguesas passaram a circular no Brasil, carimbadas com um sinete real, nos valores de 80, 160, 320 e 640 réis.
A confusão de vários tipos de moedas, com diversas origens e valores instáveis, persistia, mas não tinha grande importância, pois no período colonial, comerciava-se pouco: o mercado interno era muito pequeno. A maioria da população era composta de escravos e colonos livres: os escravos não podiam comprar nem vender, por sua própria condição social, enquanto os colonos recebiam seus pagamentos em mercadoria.

CRIAÇÃO DA CASA DA MOEDA
Moedas propriamente brasileiras só vieram a surgir no final do século XVII. Salvador era então a principal cidade da Colônia, sua capital e o mais importante centro de negócios. Por isso foi lá que, em 1694, os portugueses instalaram a primeira Casa da Moeda do Brasil. As moedas eram cunhadas em ouro e prata. As de ouro valiam I, 2 e 4 mil réis. As de prata observavam uma progressão aritmética de valores mais original: 20, 40, 80, 160, 320 e 640 réis. O povo logo Ihes deu o nome de patacões, que tinha um certo sentido depreciativo, pois ninguém acreditava muito no valor das moedas cunhadas no Brasil. De 1695 a 1702, foram postas em circulação peças de cobre (10 e 20 réis), cunhadas na Casa do Porto e destinadas a Angola, mas aqui introduzidas por determinação régia.
Logo deixou de ser vantagem para a Coroa manter a Casa da Moeda em Salvador. Com a descoberta de jazidas de ouro pelos bandeirantes e a intensa exploração das “Minas Gerais”, a fabricação do dinheiro foi transferida para o Rio de Janeiro, em 1698, aí se cunhando ouro e prata nos valores já mencionados. Em 1700 a Casa da Moeda mudou para Pernambuco, voltando porém ao Rio dois anos depois. Em 1714, havia duas casas da Moeda: no Rio e novamente na Bahia. Em 1724 criou-se a terceira, em Vila Rica, que foi extinta dez anos mais tarde. A falta de troco era tanta que o Maranhão chegou até a ter sua própria moeda, fabricada em Portugal. Era feita em ouro e prata, nos valores usuais, e em cobre, valendo 5, 10 e 20 réis.
O uso do dinheiro se restringia à faixa litorânea, onde se situavam quase todas as cidades e se realizavam as grandes transações. Nos distritos mineiros, que só produziam ouro e importavam tudo o que consumiam, o próprio ouro, cuidadosamente pesado, funcionava como moeda para o comércio. A economia de troca continuava prevalecendo em todo o interior brasileiro. Já as regiões agrícolas apresentavam um sistema econômico peculiar. As fazendas, com suas legiões de escravos, eram praticamente auto-suficientes, produzindo quase tudo que necessitavam. Nelas, o dinheiro mesmo tinha pouca importância. A riqueza era avaliada com base na propriedade imobiliária e o gado era visto como um meio de intercâmbio tão bom como qualquer outro.
Até a vinda da Corte portuguesa para o Brasil, em 1808, o valor total das moedas que aqui circulavam não ultrapassava a irrisória cifra de 10.000 contos (ou 10 milhões de réis). O sistema monetário, irracional, complicava-se cada vez mais: chegaram a circular, ao mesmo tempo, seis diferentes relações legais de moedas intercambiáveis. Além disso, ouro em barra e em pó passava livremente de mão em mão, e moedas estrangeiras, algumas falsas, eram encontradas com a maior facilidade.

DO IMPÉRIO Á REPUBLICA
Ao transferir-se para o Rio de Janeiro, a Corte acelerou consideravelmente o processo econômico. Crescendo a produção e o comércio, tornou-se imprescindível colocar mais dinheiro em circulação. Fundou-se então o Banco do Brasil, que iniciou a emissão de papel-moeda, cujo valor era garantido pelo seu lastro, ou seja, por reservas correspondentes em ouro. Entretanto, quando D. João VI retornou a Portugal, levou não só a Corte mas também o tesouro nacional. Golpe grave: as reservas bancárias da Colônia reduziram-se a 20 contos de réis. No dia 28 de julho de 1821, todos os pagamentos foram suspensos. Passou-se a emitir papel-moeda sem lastro metálico suficiente, ocasionando a progressiva desvalorização do dinheiro.
Assim, quando D. Pedro I se tornou imperador do Brasil em 1822, encontrou os cofres vazios e uma enorme dívida pública. A independência brasileira começava praticamente sem fundos. Sob D. Pedro II a situação melhorou um pouco, devido ao aumento da produção industrial, ao café, e à construção de ferrovias e estradas, que permitiam um escoamento mais eficiente das riquezas.
A desvalorização, porém, já era um mal crônico e as crises financeiras se sucediam. Só em 1911 – em plena República – é que o dinheiro brasileiro registrou sua primeira alta no mercado internacional. De lá para cá, muita coisa mudou na economia brasileira, inclusive a moeda, que trocou várias vezes de nome: ao réis sucedeu, em 1942, o cruzeiro (e as subdivisões em centavos), que em 1967 se transformou em cruzeiro novo, valendo mil vezes o antigo. Três anos depois. voltou a ser apenas cruzeiro; em 1986 passou a chamar-se cruzado, que em 1989 passou a chamar-se cruzado novo, que em 1990 voltou a chamar-se cruzeiro, que em 1993 passou a chamar-se cruzeiro real, que por sua vez passou a chamar-se em 1994 real.
HISTÓRIA DA MOEDA
(criada em 25.01.2000)
(atualizada em 18.05.2001)

A história da moeda confunde-se com a história econômica das nações que, por sua vez, está diretamente ligada aos acontecimentos políticos: guerras, descobertas científicas, domínios, questões econômicas, ambientais, etc.
9.000 – 6.000 a.C. – O homem passa a domesticar animais e cultivar alguns alimentos. Em algumas sociedades, o homem neolítico era totalmente auto-suficiente.
4.000 – 3.100 a.C. – Primeiros indícios de escrita na Mesopotâmia, que marca o início do período da história denominado Idade Antiga ou Antiguidade, estendendo-se até 476 d.C. Também marcam desta data: fundação das primeiras cidades, estabilização de um governo organizado, o início da ciência, especialização e aperfeiçoamento de artes industriais primárias.
3500 a.C. – Surgimento das grandes civilizações da antiguidade com relações mais complexas e que exige maior cooperação entre os indivíduos e dependência de outros produtos que passam a ser trocados.
3000 a.C. – Em lugar da pedra polida, inicia-se o uso de alguns metais, principalmente o cobre, o ouro e o bronze, com a descoberta pelos egípcios e sumérios de seus processos de fundição. Obs.: não era conhecido ainda o processo de fundição do ferro.
2700 a.C. – 1.100 a.C. – Idade do bronze.
2575 a.C. – Construção da grande pirâmide de Gizé, no Egito.
1100 a.C. – Início da idade do ferro na Grécia: no séc. XII a.C., com a destruição do império hitita, o processo de fabricação do ferro foi difundido e, por ser mais abundante e resistente, passou a ser utilizado em massa na fabricação de vários instrumentos agrícolas e de uso geral; os camponeses e artesãos tiveram acesso a ferramentas que antes não podiam ter, deixando o bronze como material aristocrático. Devido à popularização do ferro cresceu o intercâmbio entre os povos, que utilizavam utensílios de ferro como meio de troca.
900 a.C. – Início da idade do ferro na Europa Ocidental.
687 a.C. – 630 a.C. – Primeiras moedas do mundo surgidas na Lídia (região da península da Anatólia – pertencendo atualmente à Turquia), feitas de uma liga de prata e ouro.
600 a.C. – 570 a.C. – Cunhagens de cidades gregas: Aegina – símbolo: tartaruga (595 a.C.), Atenas – dracma – símbolo: coruja (575 a.C.) e Corinto – símbolo: cavalo alado (570 a.C.).
550 a.C. – Também na Lídia, sob reinado de Creso, tem origem as primeiras moedas de metal puro.
540 – 510 a.C. – Moedas de Sabaris – símbolo: touro.
480 a.C. – Moedas em Siracusa – sul da península itálica.
480 a.C. – Batalha de Salamis – vitória da civilização grega sobre os persas.
421 – 350 a.C. – Moedas do Peloponeso (Grécia) – símbolo: dois golfinhos.
360 a.C. – 336 a.C. – Felipe II da Macedônia conquista a Grécia.
336 a.C. – 323 a.C. – Durante o governo de Alexandre, o Grande (filho de Felipe II) é fixado a paridade de 10 unidades de prata para uma de ouro.
330 a.C. – O rei persa Dario conquista a Lídia (primeiro a ter o retrato cunhado em moedas), dáricos de ouro.
269 a.C. – Roma emite os primeiros denários de prata.
218-201 a.C. – Roma vence Cartago (segunda Guerra Púnica – derivado de poeni = nome que os romanos davam aos cartagineses) – início da expansão romana e hegemonia comercial de Roma no Mediterrâneo.
55 a.C. – Júlio César invade a Grã-Bretanha. Em 46 a.C. põe fim a República e instala a ditadura. Moeda romana da época tinha o retrato de César. Desta época é o calendário juliano (de Júlio César) que já contava com 365 dias e previa o ano bissexto.
27 a.C. – Otávio torna-se o primeiro imperador de Roma (Império Romano).
Em 193 d.C. (depois de Cristo) – O Império Romano, que vivia basicamente de tributos, é obrigado a emitir moeda, desencadeando um processo inflacionário.
270 d.C. – Percentual de prata nas Moedas romanas baixa para apenas 4%.
306 – 337 – Constantino constrói uma nova capital na entrada do Mar Negro (Constantinopla) e emite uma nova moeda de ouro, o sólido, que continua ser produzido até o ano de 1006.
324 – Hiperinflação assola província egípcia pertencente ao Império Romano.
395 – Teodósio realiza a divisão do Império Romano.
435 – Anglo-saxões invadem a Grã-Bretanha, que fica 130 anos sem utilizar moedas como dinheiro.
476 – Fim do Império Romano do Ocidente, que marca a transição da Antiguidade para a Idade Média.
500-1000 – Período de isolamento da Europa.
Séc. VI – Monge Dioniso, o Pequeno adotou o nascimento de Cristo para contagem da era cronológica cristã. (Antes disto, era difícil falar de datas em moedas).
1095 – 1270 – As Cruzadas são expedições militares com destino à Ásia menor e Palestina e também visavam abertura de rotas comerciais.
806-821 – surge o dinheiro de papel (cédulas) na China.
1232-1253 – Florença e Genova emitem moedas de ouro. O padrão de Florença, o florim, foi copiado em outras partes da Europa. A prata da Europa concentrava-se na Saxônia.
1278-1295 – Viagem de Marco Polo à China. Devido ao desenvolvimento do comércio aumentou a necessidade por metais preciosos para cunhagem. O ouro (tibar = ouro em pó) de Gana, Mali e Sonraí (África) era comerciado por via terrestre com a Europa, mas tal operação tornou-se difícil tendo em vista a ação dos árabes na região.
1319-1331 – Regiões da Índia e do Japão também emitem papel-moeda.
1400 – 1530 – Desenvolve-se o movimento renascentista na Europa, que tem como centro de irradiação a Itália, que tinha forte estrutura de comércio.
1401 – Fundação do Banco de Barcelona e, em 1407, o Banco de Gênova.
1415 – Portugal inicia a expansão marítima, tendo como objetivo mais próximo a busca do ouro da costa oeste da África (1418/19 – Ilha da Madeira, 1427 – Açores, e finalmente, em 1444 chegando ao primeiro centro abastecedor de ouro por via marítima, que perdurou até 1540).
1436 – Cunhagem dos primeiros escudos, em Portugal, e, em 1457, emitidos os cruzados que mantiveram seu peso em ouro até 1537.
1453 – Tomada de Constantinopla pelos turcos–otomanos. O bloqueio das rotas comerciais entre Europa e Ásia pelos turcos gera grande prejuízo econômico, levando os europeus a procurar novos caminhos para Ásia.
1489 – Henrique VII – emissão da moeda sovereign de ouro, passando a libra inglesa a unidade de valor para moeda.
1492 – Descobrimento da América.
1500-1520 – Retirados da África para Portugal, em média, 400 kg de ouro por ano.
1545 – Descoberta em Potosi uma montanha de prata com 10 quilômetros de circunferência, em uma região onde mais tarde seria a Bolívia.
1588 – Frota inglesa vence a esquadra espanhola.
1600 – Fundação da companhia Britânica das Índias Orientais.
Período de consolidação das monarquias absolutistas na Europa; fundação de vários bancos na Europa: 1609 – Amsterdã e Barcelona; 1616 – Middelburg; 1621 – Nuremberg; 1635 – Roterdã; 1656 – Suécia;1694 – Inglaterra;1695 – Escócia.
1640 – Ajuda da Inglaterra para que Portugal deixasse de ser subordinado à Espanha.
1645 – “Casa de Moeda” de Paris é totalmente mecanizada.
1645 – Cunhadas as primeiras moedas no Brasil, durante a ocupação holandesa que, para não saírem da colônia, tinham o valor 20% acima das holandesas, daí os valores de 6 e 12 florins.
1650 – Preço do açúcar começa a cair em virtude da concorrência. De 3.800 réis a arroba em 1650, passou a 2.400 réis em 1668 e a 1.300 réis em 1698.
1663 – Embora proibida a cunhagem de moedas no Brasil, a Lei de 22 de março de 1663 autorizou os “carimbos coroados”.
1690 – Primeiras descobertas de minas de ouro e diamante no Brasil (Minas Gerais).
1692 – Como medida para evitar possíveis invasões de outras metrópoles, Câmara Coutinho convenceu as autoridades portuguesas a permitir uma moeda provincial, de valor mais alto que a do Reino (com mesmo peso em metal) – para evitar sua saída – com validade restrita ao Brasil.
1694 – Fundada a Casa da Moeda do Brasil com sede em Salvador (08/03/1694). em 1702 muda-se para o Rio de Janeiro; na Bahia continua funcionando para cunhagem local, bem como em Minas Gerais (Vila Rica) 1727.
1707 – Uniformização da cunhagem da Inglaterra e Escócia.
1720 – Auge do ciclo do ouro no Brasil. Foram exportadas, neste ano, 25 toneladas. Em 1712 foram 14.500 quilos, em 1703 foram 4.350 quilos, em 1701 foram 1785 quilos e 1699 foram 725 quilos por ano. Quantidade enorme, tendo em vista as condições da época e que a atual produção de ouro no Brasil é de 75.000 quilos (vide produção mundial de ouro).
1722 – Invenção do tear mecânico na Inglaterra.
1750 -1790 – Estagnação e depois diminuição da produção de ouro no Brasil, final do século a produção era de 4.300 quilos.
1765 – James Watt aperfeiçoa o motor a vapor, a primeira forma regular e estável de obtenção de energia inventada pelo homem e marco da Revolução Industrial.
1784 – Processo de produção do aço é criado na Inglaterra.
1776 – Independência dos Estados Unidos da América e 1789 – Revolução Francesa.
1790 – Estados Unidos adotam a “lei dos brevês” para proteção dos direitos do inventor (base da futura legislação sobre patentes).
1792 – O dólar é adotado como unidade monetária dos Estados Unidos.
1794 – Início da “casa da moeda” na Filadélfia (U.S. Mint): 25 centavos, 50 centavos e 1 dólar em prata. Em ouro foram cunhadas duas moedas: 8.75 g e 17.5 g (sem valor facial), todas datadas.
Séc. XVIII – Grã-Bretanha: mais emissões de guinea (21 shillings) todas em ouro, mas já existia o sovereign (libra) (20 shillings).
França: várias emissões nos padrões “deniers”, “sols”, “livres”, etc., com várias marcas monetárias das diversas casas de cunhagem.
Estados italianos: principais centros: Gênova (1745 cunhagem da lira); Milão, Nápoles e Sicília. Uso de vários padrões monetários (denari, soldo, scudo, etc.).
Portugal: usava o padrão réis, bem como o Brasil, que era sua colônia.
1800-1830 – Forte atuação do setor bancário na Europa e Estados Unidos.
1810-1830 – Independência de vários países da América Latina.
1830-40 – Fundação de bancos na Índia sob as regras britânicas, para fins comerciais.
1848 – Descoberta de ouro na Califórnia e em 1851 na Austrália.
1857 – Rápida crise bancária iniciada nos Estados Unidos.
1860-1921 – Número de bancos dos Estados Unidos aumenta 19 vezes alcançando 30 mil em 1921.
1861-1865 – Guerra Civil nos Estados Unidos.
1861-1870 – Unificação da Itália.
1871 – Unificação da Alemanha.
1873 – Fundado o Banco Dai-Ichi e em 1876 o Mitsui (Japão).
1870-1878 – Ouro torna-se padrão internacional, substituindo o bimetalismo.
1907 – Crise bancária internacional.
1913 – Estabelecido o sistema de banco central nos Estados Unidos (Federal Reserve).
1920-1928 – Forte expansão dos Estados Unidos, recuperação da Europa, que saiu da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), depressão no Japão e hiperinflação na Alemanha.
1922 – Brasil deixa de cunhar moedas em ouro para circulação normal, utilizando apenas, a partir de 1972, para moedas comemorativas. Em 1942 foi proibida a cunhagem de moedas comemorativas no Brasil, o que perdurou até 1972.
1926 – Criação da Caixa de estabilização, com a finalidade de converter todo o papel-moeda em “cruzeiro-ouro” (antes do cruzeiro existiam 56 tipos diferentes de cédulas).
1927 – Maciços investimentos em ações nos Estados Unidos, estimulado por corte de juros. Estados Unidos já respondiam por 47% da produção industrial do mundo.
1929 – Quebra da Bolsa de Nova York e início da Grande Depressão e ascensão de regimes totalitários na Europa.
1931 – Grã-Bretanha, Japão e outro países abandonam o padrão ouro seguindo a teoria keynesiana.
1933 – Estados Unidos param de cunhar moedas em ouro para circulação normal.
1939-1945 – Segunda Guerra Mundial, Estados Unidos se afirmam como maior potência econômica e militar do mundo.
1942 – Introdução do padrão monetário “cruzeiro” que substituiu o “réis”, na razão de Cr$ 1,00 para mil réis.
1947-1965 – Independência de vários países da Ásia e da África. Fim do colonialismo político, predomínio do colonialismo econômico.
1961 – Casa da Moeda do Brasil passa a fabricar cédulas, que antes eram impressas pela American Bank Note Company – New York, Waterlow & Sons Limited – Londres e Thomas de La Rue & Company Limited – Londres. 5 cruzeiros – 1961 e todas as demais a partir de 1970.
1964 – Último ano em que o quarter (moeda de 25 centavos) é cunhado em prata.
1971 – Estados Unidos suspendem a conversibilidade do dólar em ouro.
1971 – Inglaterra adota o sistema decimal.
1973 – Estados Unidos abandonam o padrão ouro.
1975 – Intensificação da cunhagem de moedas comemorativas em todo o mundo.
1980 – Crise da dívida externa dos países em desenvolvimento: Polônia em 1980, México em 1982.
86-94 – Planos econômicos no Brasil, que muda de moeda cinco vezes neste período, para combater a alta inflação.
1989 – Europa Oriental abandona o comunismo e adota regras de livre mercado.
1991 – Dissolução da União Soviética.
1997 – Crise asiática.
1999 – Início do novo padrão monetário nos países da comunidade Européia: o euro.

Fonte: CD Livro Eletrônico – Ed. Didática Paulista
Coordenado: Sandro da Silva Pinto

Um comentário sobre “História da Moeda

  1. Paulo Abrahão disse:

    Li com muito interesse este execelente artigo , porém gostaria de saber qual a composição metálica atual das moedas. Já que o custo de fabricação parece ser praticamente o mesmo em todo o mundo .
    Grato

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